Ao longo do tempo, presos, familiares, companheiros, investigadores, evocaram de diferentes maneiras assuntos e situações especialmente marcantes do Campo de Concentração do Tarrafal.
Esse esforço de recuperação da memória, sustentado em testemunhos frequentemente difusos e mesmo, por vezes, contraditórios, esbarrou também na documentação policial e administrativa que tem vindo, entretanto, a ser identificada, cujo principal característica consistia em escamotear ou disfarçar a realidade vivida naquela “colónia penal”, ocultando a violência assassina da sua instituição e do seu funcionamento.
Considerámos assim essencial tentar fixar, quanto possível, o significado de expressões recorrentes e que permitem, afinal, melhor entender o que foi, nas suas duas fases, o Campo de Concentração do Tarrafal.
| Biliosa anúrica |
| Forma grave de paludismo, caracterizada, entre outras manifestações, por icterícia intensa e insuficiência renal aguda, podendo evoluir para anúria (ausência ou produção extremamente baixa de urina). No Tarrafal, devido às condições insalubres e ausência de assistência médica e medicamentosa adequada, constituiu a principal causa de morte dos deportados. |
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| Brigada Brava |
| Criada em 29 de maio de 1939, a Brigada Brava era constituída por presos políticos mais responsáveis ou vítimas de punições arbitrárias. Concebida como um instrumento de «regeneração» dos inimigos do Estado Novo, assentava na violência física e na imposição de um regime de trabalho forçado particularmente brutal. O trabalho começava pouco depois das 6 horas da manhã e prolongava-se até às 17 horas, com apenas um breve intervalo para o almoço. Durante esse período, os presos eram obrigados a utilizar enxadas e picaretas para escavar a terra seca, pedregosa e repleta de rochas. Não lhes era permitido fumar e apenas podiam beber água e urinar uma vez por turno. O ritmo de trabalho e as elevadas temperaturas levavam frequentemente os homens à exaustão, fazendo com que caíssem por terra, sem forças, sendo depois transportados em braços pelos próprios companheiros. Devido à brutalidade das condições impostas, que provocaram graves consequências físicas e danos irreversíveis na saúde dos presos que a integraram, subsistiu somente 45 dias, com apenas dois homens conseguido suportá-la até ao fim. |
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| Carril/Carrilhão |
| Junto ao portão do Campo encontrava-se um troço de carril suspenso por arames enferrujados, utilizado pelos guardas para regular o quotidiano dos presos através de um ritual de pancadas desferidas com um varão de ferro. O som metálico e vibrante de dez pancadas, audível à distância como o toque de um sino, assinalava as diferentes atividades que compunham o dia dos degredados: às cinco da manhã, o despertar; às cinco e meia, o café; às seis, a primeira formatura; às onze, o almoço; às catorze, a formatura da tarde, durante a qual se procedia à entrega da correspondência, à leitura das «ordens de serviço» e dos respetivos castigos, ao anúncio dos regulamentos a cumprir e ao regresso ao trabalho; às dezassete e trinta, o jantar; e, finalmente, às vinte e duas horas, o recolher obrigatório nas barracas. As três pancadas, dadas às dez e às dezassete horas, anunciavam a cessação do trabalho, tanto no interior como no exterior do Campo. O “carril” era ainda utilizado para reunir os presos, transmitir informações, organizar formaturas ou anunciar aos doentes a chegada do médico. |
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| Diretores do Campo de Concentração do Tarrafal (1936-1954) |
| Capitão Manuel dos Reis, «O Manuel dos Arames» (1936-1937) |
| Capitão José Júlio da Silva (1937-1938) |
| Capitão João da Silva, «O Faraó» (1938-1940) |
| Capitão José Olegário Antunes, «O Arreda» (1940-1942) |
| Capitão Filipe Barros, «O Abóbora» (1942-1944) |
| Capitão David Prates da Silva (1945-1954) |
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| Diretores do Campo de Trabalho de Chão Bom/Campo de Concentração do Tarrafal (1961-1974) |
| José Pedro Queimado Pinto (1961-1963) |
| Hélder Lima dos Santos (1963-1965) |
| José da Silva Vigário (1965-1967) |
| Eduardo Vieira Fontes (1967-1974) |
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| Fomes de Cabo Verde: 1942 |
| Uma das mais graves crises de fome registadas no arquipélago de Cabo Verde ocorreu em 1942, provocando a morte de milhares de pessoas. Apesar de devidamente informado sobre a gravidade da situação, o Governo português não revelou empenho na adoção de medidas destinadas a assegurar o abastecimento alimentar e a melhorar o acesso da população à água potável. A insuficiência da resposta das autoridades contribuiu para o agravamento do descontentamento entre a população cabo-verdiana, particularmente entre os setores ligados ao comércio. Alguns desses comerciantes seriam posteriormente internados no Tarrafal, na sequência das informações transmitidas pelo inspetor superior colonial Henrique Galvão, vindo alguns deles, mais tarde, a ser sujeitos a fixação de residência em diferentes ilhas do arquipélago. |
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| Frigideira |
| Situada fora do Campo, nas proximidades do aquartelamento dos soldados africanos, a «frigideira» era uma construção retangular de cimento, com cerca de seis metros de comprimento por três de largura. Exposta diretamente ao sol durante todo o dia, e |
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| Biliosa anúrica |
| Forma grave de paludismo, caracterizada, entre outras manifestações, por icterícia intensa e insuficiência renal aguda, podendo evoluir para anúria (ausência ou produção extremamente baixa de urina). No Tarrafal, devido às condições insalubres e ausência de assistência médica e medicamentosa adequada, constituiu a principal causa de morte dos deportados. |
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| Brigada Brava |
| Criada em 29 de maio de 1939, a Brigada Brava era constituída por presos políticos mais responsáveis ou vítimas de punições arbitrárias. Concebida como um instrumento de «regeneração» dos inimigos do Estado Novo, assentava na violência física e na imposição de um regime de trabalho forçado particularmente brutal. O trabalho começava pouco depois das 6 horas da manhã e prolongava-se até às 17 horas, com apenas um breve intervalo para o almoço. Durante esse período, os presos eram obrigados a utilizar enxadas e picaretas para escavar a terra seca, pedregosa e repleta de rochas. Não lhes era permitido fumar e apenas podiam beber água e urinar uma vez por turno. O ritmo de trabalho e as elevadas temperaturas levavam frequentemente os homens à exaustão, fazendo com que caíssem por terra, sem forças, sendo depois transportados em braços pelos próprios companheiros. Devido à brutalidade das condições impostas, que provocaram graves consequências físicas e danos irreversíveis na saúde dos presos que a integraram, subsistiu somente 45 dias, com apenas dois homens conseguido suportá-la até ao fim. |
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| Carril/Carrilhão |
| Junto ao portão do Campo encontrava-se um troço de carril suspenso por arames enferrujados, utilizado pelos guardas para regular o quotidiano dos presos através de um ritual de pancadas desferidas com um varão de ferro. O som metálico e vibrante de dez pancadas, audível à distância como o toque de um sino, assinalava as diferentes atividades que compunham o dia dos degredados: às cinco da manhã, o despertar; às cinco e meia, o café; às seis, a primeira formatura; às onze, o almoço; às catorze, a formatura da tarde, durante a qual se procedia à entrega da correspondência, à leitura das «ordens de serviço» e dos respetivos castigos, ao anúncio dos regulamentos a cumprir e ao regresso ao trabalho; às dezassete e trinta, o jantar; e, finalmente, às vinte e duas horas, o recolher obrigatório nas barracas. As três pancadas, dadas às dez e às dezassete horas, anunciavam a cessação do trabalho, tanto no interior como no exterior do Campo. O “carril” era ainda utilizado para reunir os presos, transmitir informações, organizar formaturas ou anunciar aos doentes a chegada do médico. |
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| Diretores do Campo de Concentração do Tarrafal (1936-1954) |
| Capitão Manuel dos Reis, «O Manuel dos Arames» (1936-1937); |
| Capitão José Júlio da Silva (1937-1938); |
| Capitão João da Silva, «O Faraó» (1938-1940); |
| Capitão José Olegário Antunes, «O Arreda» (1940-1942); |
| Capitão Filipe Barros, «O Abóbora» (1942-1944); |
| Capitão David Prates da Silva (1945-1954). |
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| Diretores do Campo de Trabalho de Chão Bom/Campo de Concentração do Tarrafal (1961-1974) |
| José Pedro Queimado Pinto (1961-1963). |
| Hélder Lima dos Santos (1963-1965). |
| José da Silva Vigário (1965-1967). |
| Eduardo Vieira Fontes (1967-1974) |
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| Fomes de Cabo Verde: 1942 |
| Uma das mais graves crises de fome registadas no arquipélago de Cabo Verde ocorreu em 1942, provocando a morte de milhares de pessoas. Apesar de devidamente informado sobre a gravidade da situação, o Governo português não revelou empenho na adoção de medidas destinadas a assegurar o abastecimento alimentar e a melhorar o acesso da população à água potável. A insuficiência da resposta das autoridades contribuiu para o agravamento do descontentamento entre a população cabo-verdiana, particularmente entre os setores ligados ao comércio. Alguns desses comerciantes seriam posteriormente internados no Tarrafal, na sequência das informações transmitidas pelo inspetor superior colonial Henrique Galvão, vindo alguns deles, mais tarde, a ser sujeitos a fixação de residência em diferentes ilhas do arquipélago. |
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| Frigideira |
| Situada fora do Campo, nas proximidades do aquartelamento dos soldados africanos, a «frigideira» era uma construção retangular de cimento, com cerca de seis metros de comprimento por três de largura. Exposta diretamente ao sol durante todo o dia, era constituída por duas celas de reduzidas dimensões, separadas por uma parede interior. Cada cela possuía uma porta de ferro, perfurada na parte inferior por cinco pequenos orifícios, onde mal cabia um dedo. Tinha uma cobertura formada por uma espessa placa de betão, que contribuía para a acumulação de calor no interior durante o dia. Durante a noite, verificava-se uma descida acentuada da temperatura, acompanhada por condições de humidade e pela presença de insetos. A ventilação e a iluminação eram reduzidas, sendo asseguradas por um pequeno postigo gradeado, situado junto ao teto, em forma de meia-lua, com menos de cinquenta centímetros de largura e cerca de trinta centímetros de altura. Construída como pavilhão disciplinar, a «frigideira» destinava-se ao isolamento e à punição dos presos, tornando-se no principal símbolo do sofrimento e dos castigos aplicados no Tarrafal. A sua utilização iniciou-se em agosto de 1937 e, embora cada cela tivesse uma capacidade prevista para dois ou três presos, chegaram a permanecer doze homens simultaneamente no seu interior. O regime de punição incluía a redução das rações alimentares, sendo os presos, em determinadas situações, alimentados apenas com pão e água, sopa rala ou quantidade reduzida de alimentos. As condições de confinamento, associadas ao isolamento, à privação alimentar, às elevadas temperaturas durante o dia e ao arrefecimento noturno, fizeram da «frigideira» o espaço de punição mais severo do Campo. |
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| Fugas |
| Entre 1936 e 1954, registaram-se cinco tentativas de fuga do Campo do Tarrafal, todas sem sucesso, ocorridas em 2 de agosto de 1937, 2 de agosto de 1938, 28 de maio de 1941, 22 de maio de 1943 e 6 de agosto de 1944. |
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| Holandinha |
| Estrutura de betão construída durante a segunda fase do Campo, destinada ao isolamento e punição dos presos, que veio substituir a «frigideira» enquanto espaço disciplinar. Tratava-se de uma cela de dimensões muito reduzidas, praticamente desprovida de aberturas e dissimulada no interior de uma arrecadação da cozinha. A cela apresentava 1,76 m de comprimento, 1,05 m de largura e 1,79 m de altura e a sua designação foi-lhe atribuída pelos presos comuns cabo-verdianos, numa referência à Holanda, país de destino de muitos emigrantes naturais do arquipélago. |
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| “Ilha dos pinguins” ou “aldeia dos pinguins” |
| Designação atribuída ao alojamento reservado a alguns deportados republicanos que recusavam a convivência com os presos comunistas e anarcossindicalistas. Tratava-se de uma tenda de lona ou barraca, instalada temporariamente fora do recinto delimitado pelos arames farpados, onde permaneciam os seus ocupantes, conhecidos entre os restantes presos pela designação de «pinguins». A sua proximidade e colaboração com os carcereiros e com a direção do Campo, denunciando, não raras vezes, a atuação de muitos outros detidos políticos que, assim, eram castigados, contribuíram para que fossem alvo de desconfiança e desprezo por parte dos demais presos. |
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| Médico |
| Passaram pelo Campo dois médicos: Esmeraldo Pais Prata (1937-1945), conhecido entre os presos pela alcunha de «O Tralheira», cujo lema era «não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito», tendo assinado; 30 das 32 certidões dos portugueses mortos no Tarrafal; e Pedro José Pestana de Ornelas (1945-1954) que, na ausência do Diretor, assumia, oficialmente, as suas funções. |
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| Mitra |
| Barracão destinado ao alojamento de presos doentes em estado menos grave, designadamente de doentes crónicos e de convalescentes afetados por paludismo, febres, «biliosas» e outras patologias. Inaugurado em 1938, apresentava deficientes condições higiénicas e de assistência médica, tendo chegado a acolher cerca de quarenta homens em simultâneo. Integrava o Pavilhão D, o mesmo que acolhia o “Porta-Aviões”. |
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| Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT) |
| Foi a organização prisional com maior número de membros no Campo, integrando vários destacados dirigentes do Partido Comunista Português (PCP). Estruturada segundo uma hierarquia própria, procurava assegurar a disciplina, coesão política e organizativa dos comunistas deportados, promovendo e orientando o debate ideológico e teórico no interior do Campo. Desempenhava igualmente um papel central na organização da vida quotidiana dos seus membros, na definição de redes internas de solidariedade e sociabilidade e na manutenção de contactos clandestinos com o exterior. Cabia-lhe ainda gerir as relações com as restantes organizações de presos e as sucessivas direções do Campo, tendo o seu principal líder, Bento Gonçalves, falecido no Tarrafal. |
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| Organização Libertária de Presos do Tarrafal (OLPT) |
| Era a segunda organização prisional com maior número de membros, integrando destacados ativistas anarcossindicalistas e militantes anarquistas. Procurou assegurar a organização e a intervenção política dos seus membros no interior do Campo, tendo como referência os princípios e conceções libertárias que orientavam a sua atuação. Era ainda responsável pelas relações estabelecidas com os restantes grupos de presos e a administração do Campo. Dois dos principais dirigentes, Arnaldo Simões Januário e Mário dos Santos Castelhano, faleceram no Campo. |
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| Organização dos Comunistas Afastados (OCA) |
| Em consequência de divergências políticas, ideológicas e pessoais, vários militantes comunistas afastaram-se ou foram expulsos da Organização Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT), vindo a agrupar-se, de modo informal, num coletivo que ficaria conhecido como «grupo dos comunistas afastados». Embora a OCPT os considerasse elementos «antipartido», muitos desses deportados continuaram a identificar-se como comunistas, mantendo a sua intervenção antifascista e oposicionista no interior do Campo. |
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| “Os ferros-velhos” |
| Designação atribuída aos deportados que não eram politizados, nem integravam qualquer das estruturas constituídas no Campo com base em afinidades ideológicas. A sua deportação para o Tarrafal resultava de condenações por delitos relacionados exclusivamente com o uso ou a posse de armas proibidas, de fogo ou brancas, não estando, pelo menos formalmente, associada a atividade política. Estes presos, classificados como autores de delitos comuns, totalizavam mais de duas dezenas e começaram a chegar ao Tarrafal a partir de 1940. Cumpriram no Campo, em regra, poucos anos de degredo, antes de serem libertados ou transferidos. |
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| Paludismo |
| O paludismo foi a doença que mais afetou os presos do Campo, atingindo, em maior ou menor grau, a generalidade dos deportados. A elevada incidência da doença estava relacionada com a localização do Campo numa zona de pântanos, como o da Achada Grande, favorável à proliferação de mosquitos, e com as condições ambientais e sanitárias existentes. Ao longo do ano, após cerca de nove meses de estação seca, seguiam-se três meses de maior pluviosidade — agosto, setembro e outubro —, período particularmente propício à reprodução dos mosquitos e à propagação da doença. A situação era agravada pela insuficiência de água potável, pela inexistência ou escassez de mosquiteiros, pelas deficientes condições de higiene, pela assistência médica limitada, pela dificuldade ou recusa no acesso a medicamentos e pela alimentação inadequada. O chamado «período agudo», correspondente aos três meses de maior pluviosidade, era particularmente temido pelos presos, devido à frequência e intensidade dos acessos febris, às elevadas temperaturas, aos casos de biliosa anúrica e ao aumento da mortalidade. Dos 32 portugueses falecidos no Tarrafal, 12 morreram durante esse trimestre. |
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| Pavilhão C4 |
| Espaço destinado ao internamento de presos que apresentavam perturbações ou alterações graves da saúde mental, tendo recebido o primeiro internamento em janeiro de 1945. |
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| Porta-aviões |
| Designação atribuída às instalações destinadas ao alojamento dos presos conhecidos como «rachados», isto é, daqueles que haviam rompido com as orientações dos coletivos prisionais e que, em muitos casos, colaboravam com os guardas e com os agentes da PIDE no interior do Campo, fornecendo informações ou participando em ações de provocação dirigidas aos restantes presos. Inaugurado em 29 de abril de 1939, o espaço ocupava uma das casernas do Pavilhão D e tinha capacidade para cerca de três dezenas de presos, entre os quais se encontravam «apolíticos», «renegados», «amarelos» ou «rachados». O nome ironizava com o facto de ser um possível passo para a sua libertação devido às cedências feitas e à renúncia dos seus ideais, recompensada por uma eventual redução da pena, e os seus ocupantes, que gozavam de algumas liberdades, eram, na grande maioria, hostilizados e desprezados pelos restantes detidos. O espaço foi desativado em meados de 1941, na sequência da tentativa de fuga protagonizada por dois presos alemães. |
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| “Rachados” |
| Epíteto atribuído aos presos que haviam renegado os seus ideais políticos e abandonado a luta, passando, em muitos casos, a colaborar com as autoridades prisionais e a fornecer informações sobre os seus antigos companheiros. Beneficiavam, por isso, de condições mais favoráveis de reclusão, nomeadamente no que respeitava ao alojamento, à alimentação, aos trabalhos que lhes eram atribuídos e à possibilidade de circulação fora do recinto do Campo, o que contribuiu para a forte hostilidade de que eram frequentemente alvo. |
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| Visitas ao Tarrafal |
| Os pais de Guilherme da Costa Carvalho, Herculana e Luís Alves de Carvalho, foram autorizados, por duas vezes, a visitar o filho no Tarrafal. A primeira visita ocorreu em dezembro de 1949, durante a qual recolheram fotografias individuais e coletivas dos presos políticos, bem como das campas dos que haviam falecido no Campo. De regresso a Portugal, o casal percorreu o país, visitando as famílias dos deportados, a quem entregou as fotografias obtidas em Cabo Verde. Simultaneamente, recolheu retratos e notícias com o propósito de os levar aos presos durante uma segunda visita, a qual se realizou em junho de 1950. Durante as suas deslocações à vila do Tarrafal, estabeleceram amizade com Eulália Andrade, conhecida por Nha Beba, e com o seu marido, José Freire Andrade, conhecido por Nho Papacho. Ambos testemunharam a abertura e o encerramento da Colónia Penal e, posteriormente, do Campo de Trabalho, desenvolvendo importantes ações de solidariedade e apoio aos presos. |